segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Um rio desbocado

Definitivo, cabal, nunca há de ser este rio Taquari. Cheio de furos pelos lados, torneiral, - ele derrama e destramela à-toa.
Só com uma tromba d'água se engravida. E empacha. Estoura. Arromba. Carrega barrancos. Cria bocas enormes. Vaza por elas. Cava e recava nosvos leitos. E destampa adoidado...
Cavalo que desembesta. Se empolga. Escouceia árdego de sol e cio. Esfrega o rosto na escória. E invade, em estendal imprevisível, as terras do pantanal.
Depois se espraia amoroso, libidinoso animal de água, abraçando e cheirando a terra fêmea.
Agora madura nos campos sossegado. Está sesteando debaixo das árvores. Se entorna preguisosamente e inventa novas margens. Por várzeas e boqueirões passeia marinheiro. Erra pelos cerrados. Prefere os deslimites do vago, o campinal dos lobinhos.
E vai empurrando através dos corixos, baías e largos, suas águas vadias.
Estanca por vezes nos currais e pomares de algumas fazendas. Descança uns dias debaixo das pimenteiras, dos landis, dos guanandis, - que agradecem.

De tarde à sombra dos cambarás pacus comem frutas.
Meninos pescam das varandas da casa.
Com pouco, esse rio se entedia de tanta planura, de tanta lonjura, de tanta grandura, - volta para sua caixa. Deu força para as raízes. Alargou, aprofundou alguns braços ressecos. Enxertou suas areias. Fez brotar sua flora. Alegrou sua fauna. Mas deixou no pantanal um pouco de seus peixes.
E emprenhou de seu limo, seus lanhos, seu humus, - o solo do pantanal.
Faz isso todos os anos, como se fosse uma obrigação.
Tão necessário, pelo que tem de fecundante e renovador, esse rio Taquari, desbocado e mal comportado, é temido também pelos seus ribeirinhos.
Pois, se livra das pragas nossos campos, também leva parte de nossos rebanhos.
Este é um rio cujos estragos compõem.


[Manoel de Barros - Livro de Pré-Coisas]

0 comentários: